Ao longo de mais de duas décadas de prática clínica, tenho observado que pacientes com uma vida espiritual ativa costumam atravessar momentos difíceis, como o tratamento de uma doença cardíaca grave, com mais serenidade. Esses pacientes sofrem como qualquer outro diante de uma doença crônica, mas encontram na fé um amparo que muda a forma como enfrentam esse sofrimento. Essa percepção, que por muito tempo permaneceu no território da experiência de cada médico, hoje encontra respaldo numa quantidade expressiva de estudos.
Em 2019, a Sociedade Brasileira de Cardiologia publicou uma diretriz dedicada a esse tema, que reúne as evidências sobre a relação entre espiritualidade, religiosidade e desfechos de saúde. O documento parte de um dado que ajuda a dimensionar a relevância da discussão: cerca de 80% da população mundial possui algum tipo de afiliação religiosa, o que torna a espiritualidade um aspecto presente na vida de praticamente todos os pacientes que atendemos.
Entre as evidências está o Nurses’ Health Study, que acompanhou mais de 74 mil enfermeiras americanas durante oito anos. As mulheres que frequentavam serviços religiosos pelo menos uma vez por semana apresentaram redução de aproximadamente 30% na mortalidade geral, incluindo mortalidade por doença cardiovascular, quando comparadas àquelas sem nenhuma participação religiosa.
Pessoas com maior envolvimento espiritual e religioso tendem a apresentar menor consumo de álcool e tabaco, maior prática de atividade física e melhor adesão a tratamentos médicos. Também costumam contar com redes de apoio social mais consistentes, o que reduz o isolamento e amplia a capacidade de enfrentamento nos momentos de doença. Do ponto de vista fisiológico, estudos têm associado maiores níveis de espiritualidade a melhores marcadores de pressão arterial, de atividade do sistema nervoso autônomo e de inflamação sistêmica.
Outros dois aspectos ligados à vida espiritual têm mostrado resultados clinicamente relevantes: o perdão e a gratidão. Um estudo com pacientes portadores de doença arterial coronariana, submetidos a dez semanas de intervenção terapêutica voltada ao desenvolvimento do perdão, demonstrou redução mensurável da isquemia miocárdica induzida por estresse emocional. A gratidão, por sua vez, tem sido associada a um perfil cardiovascular mais favorável e, em pacientes com insuficiência cardíaca, a menores níveis de fadiga, melhor qualidade do sono e melhor perfil inflamatório.
Há ainda um efeito prático, e talvez o mais relevante para quem convive com uma doença crônica: a adesão ao tratamento. Em uma coorte de pacientes com insuficiência cardíaca, menos da metade seguia corretamente a prescrição medicamentosa. Entre as variáveis avaliadas, a espiritualidade foi a que se mostrou mais consistentemente associada à adesão adequada, o que sugere que o senso de propósito e significado que ela proporciona pode sustentar a constância exigida por um tratamento de longo prazo.
Cultivar a vida espiritual e religiosa, na forma que fizer sentido para cada um, pode ser incorporado como mais um pilar de cuidado com a saúde cardiovascular, ao lado da alimentação equilibrada e da atividade física regular. Fica a pergunta que vale levar desta coluna: no que você tem se apoiado quando o corpo dá sinal de cansaço?

O elo entre a fé e a saúde do seu coração
Ao longo de mais de duas décadas de prática clínica, tenho observado que pacientes com uma

