Uma pessoa decide emagrecer para o casamento da filha, marcado para dali a seis meses. Começa a treinar cinco vezes por semana, corta o álcool, passa a dormir mais cedo e chega ao casamento com 11 quilos a menos. Seis meses depois, os 11 quilos já tinham voltado.
A explicação mais comum para esse desfecho é falta de disciplina, e esse argumento não convence, porque manter cinco treinos semanais durante seis meses exige disciplina de sobra. O problema surgiu depois da festa, quando o esforço perdeu a finalidade. O objetivo tinha data marcada no calendário e deixou de existir na manhã seguinte.
O que decide se a mudança vai durar é a motivação, o porquê do novo hábito, e existem dois tipos. Motivação extrínseca vem de algo externo, quase sempre uma recompensa com data para acontecer, e funciona bem enquanto essa data se aproxima. Motivação intrínseca vem de dentro e está ligada ao que a pessoa considera importante na própria vida. A pessoa treina para ganhar força muscular porque quer autonomia para viver o que importa, como viajar com o marido ou ver o neto crescer.
A teoria da autodeterminação, de Edward Deci e Richard Ryan, explica por que o motivo que nasce de dentro resiste ao tempo. São três pilares: autonomia, que é perceber que a escolha partiu da pessoa; competência, que é sentir que dá conta do que se propôs; e vínculo, que é ter alguém por perto que ajude na manutenção do hábito.
Outra teoria responde a uma pergunta diferente: o quanto a pessoa está pronta para mudar. Em 1983, James Prochaska e Carlo DiClemente descreveram os cinco estágios dessa prontidão. Na pré-contemplação a pessoa não reconhece o problema. Na contemplação já admite o problema e pensa em mudar. Na preparação organiza os primeiros passos, e na ação executa a mudança. Na manutenção sustenta o que conquistou. A recaída pode ocorrer em qualquer ponto e devolve a pessoa a um estágio anterior, o que torna o percurso cíclico. Cada tentativa prepara a seguinte.
O paciente que pesa 100 quilos, é sedentário, dorme mal, vive estressado e atribui a pressão alta à história familiar, e não ao próprio comportamento, está em pré-contemplação. As duas teorias tratam de coisas distintas. Um olha para a motivação, o outro para o momento da pessoa. Alguém pode ter um motivo sólido e ainda não estar pronto para agir, e outra pessoa pode estar pronta para ação, mas por uma motivação frágil.
Isso explica por que tantas orientações de saúde não produzem efeito: são dadas sem entender o momento e o contexto de vida da pessoa, e sem que ela tenha clareza do motivo pelo qual está mudando. São as duas variáveis a checar antes de montar qualquer plano de mudança de comportamento. Um motivo preso a uma data termina junto com ela, e um motivo relacionado a uma capacidade que a pessoa quer manter, como subir escada sem parar ou carregar o neto no colo, continua valendo no ano seguinte.

Por que o seu regime não dura?
Uma pessoa decide emagrecer para o casamento da filha, marcado para dali a seis meses.

