O professor Julio Tolentino, um amigo por quem tenho grande admiração e com quem divido aulas, publicou ao lado do professor Ricardo Bedirian uma revisão sobre a relação entre oração e saúde do coração. O ponto de partida é um resultado que se repete em pesquisas feitas com milhares de pessoas: quem mantém uma prática religiosa regular tem menos doença cardiovascular, com uma redução na mortalidade que chega a quase 30%. Os autores quiseram descobrir o que a oração muda no funcionamento do coração para produzir essa proteção.
Uma explicação possível seria que a pessoa religiosa simplesmente cuida melhor da própria saúde. Os pesquisadores levaram isso em conta e chegaram à conclusão de que a proteção não se explica só pelos hábitos. A prática religiosa em si tem um efeito próprio sobre o coração e a revisão foi buscar uma explicação.
O coração é comandado pelo sistema nervoso autônomo, responsável por ajustar batimentos e pressão a cada situação do dia. Ele tem dois componentes que agem como acelerador e freio. O acelerador é o sistema simpático, que entra em ação diante de um susto, de uma discussão ou de uma preocupação. O freio é o sistema parassimpático, que desacelera os batimentos, baixa a pressão e faz o corpo entrar em modo de descanso, como acontece depois de uma refeição tranquila ou nos minutos antes de dormir.
O equilíbrio entre simpático e parassimpático pode ser medido e a medida é mais simples do que parece. Ela se chama variabilidade da frequência cardíaca e avalia o quanto o ritmo do coração consegue mudar ao longo do dia. Um coração saudável ajusta o ritmo o tempo todo, acelera quando precisa e desacelera assim que pode, e quanto maior essa capacidade de ajuste, melhor o equilíbrio entre acelerador e freio. Hoje muitos relógios inteligentes já calculam esse número a partir do pulso. Quando a variabilidade cai, significa que o freio perdeu força e o acelerador passou a mandar sozinho. O coração fica preso em um ritmo de alerta, com batimentos mais rápidos, pressão mais alta e maior tendência a arritmias, e é por isso que a variabilidade baixa, comum em quem vive sob estresse, está ligada a mais infarto e morte cardíaca.
A revisão mostra que a oração melhora justamente essa medida. Em um dos estudos analisados, pessoas foram avaliadas enquanto rezavam e a variabilidade da frequência cardíaca melhorou durante a oração, com efeito mais forte nas orações de gratidão e nas feitas em silêncio.
A conclusão dos autores é que a oração produz uma mudança real no coração. Ela reduz o hormônio do estresse, diminui a inflamação e fortalece o parassimpático. Mas os pesquisadores lembram que a oração não é só um exercício de relaxamento. Quem reza se conecta com algo maior, encontra sentido no que vive e esperança diante do que não controla, e é essa experiência que se reflete no coração. A fé, vivida com constância, protege a pessoa de uma forma que passa pelo corpo e vai além dele.

O poder da oração na sua saúde
O professor Julio Tolentino, um amigo por quem tenho grande admiração e com quem divido aulas,

