Em 1961, um médico da Pensilvânia, nos Estados Unidos, comentou com Stewart Wolf, professor de medicina em Oklahoma, que quase não via infarto entre os homens da cidade onde atendia. A informação pareceu improvável o bastante para que Wolf fosse até lá conferir.
Roseto tinha cerca de 1.600 habitantes e fora formada por imigrantes italianos. A poucos quilômetros ficava Bangor, três vezes maior, com infraestrutura e estilo de vida parecidos. Ainda assim, a mortalidade por infarto em Roseto era muito menor e, entre os homens abaixo de 65 anos, a doença era quase inexistente. O achado, publicado em 1964, ficou conhecido como efeito Roseto.
Wolf chamou o sociólogo John Bruhn e, juntos, investigaram durante anos as explicações habituais, da hereditariedade aos hábitos de vida, sem encontrar uma razão convincente para a diferença entre as duas cidades. Até que voltaram a atenção para a maneira como Roseto estava organizada.
As casas ficavam próximas umas das outras e muitas abrigavam três gerações da mesma família. Para uma população de menos de 2 mil habitantes, havia um número surpreendente de associações e clubes, além de uma vida comunitária intensa. Com o passar do tempo, esse modo de vida começou a mudar. Os mais jovens passaram a estudar e trabalhar fora, enquanto as famílias que permaneciam na cidade adotavam um estilo de vida mais parecido com o restante dos Estados Unidos. As casas ficaram mais afastadas, diferentes gerações deixaram de viver sob o mesmo teto e as associações comunitárias perderam espaço. Na década seguinte, a mortalidade por infarto em Roseto já havia se aproximado da observada em Bangor.
O que chamou a atenção em Roseto seria observado depois em diferentes populações: pessoas com vínculos sociais mais fortes tendem a viver mais. Estudos que acompanharam grandes grupos ao longo dos anos encontraram uma associação entre boas relações sociais e maior sobrevida, com uma magnitude de benefício comparável à observada em outros comportamentos saudáveis, como abandonar o cigarro.
Solidão e isolamento social, embora relacionados, não são a mesma coisa. Solidão é uma percepção: alguém pode passar o dia cercado de pessoas e ainda se sentir só. Isolamento é uma condição objetiva, determinada pela quantidade e pela frequência dos contatos sociais. Roseto representava quase o extremo oposto: família, vizinhos e comunidade faziam parte da rotina diária.
A ausência de suporte social pode contribuir para um estado mais persistente de alerta, com repercussões sobre sono, pressão arterial e outros mecanismos relacionados ao risco cardiovascular.
Quem mora acompanhado tem alguém capaz de perceber aquilo que, muitas vezes, a própria pessoa não percebe: o cansaço novo ao subir uma escada, uma mudança de comportamento ou o remédio que continua na cartela. Esse olhar pode antecipar uma consulta, melhorar a adesão ao tratamento e ajudar a identificar uma doença mais cedo.
Roseto continua no mesmo ponto da Pensilvânia, com as mesmas ruas estreitas e muitas das mesmas casas próximas umas das outras. Hoje, porém, cada uma delas abriga uma família só.

O risco que não aparece nos exames
Em 1961, um médico da Pensilvânia, nos Estados Unidos, comentou com Stewart Wolf, professor de medicina

