Os jovens que estão chegando à vida adulta cuidam do corpo como poucos. Treinam com regularidade, leem o rótulo do que comem, acompanham o próprio sono pelo relógio, bebem menos álcool e falam de autocuidado com naturalidade. É a geração mais atenta ao corpo que já passou pelos consultórios.
Quando o foco passa para a saúde emocional, o retrato muda de figura. No Brasil, uma pesquisa do Datafolha mostrou que oito em cada dez pessoas de 15 a 29 anos relataram algum problema recente de saúde mental, e quase metade descreveu sintomas de ansiedade. A mesma geração que trocou o bar pela academia é a que mais convive com ansiedade, insônia e a sensação de estar sempre no limite. Cuidar tanto do corpo e sofrer tanto por dentro parece contradição, e compreender por que as duas coisas caminham juntas explica boa parte do que se passa com esses jovens.
A explicação começa no ambiente em que eles cresceram, porque foram os primeiros a atravessar a adolescência inteira dentro de uma tela. No Brasil, uma fatia enorme passa de quatro a sete horas por dia nas redes sociais, tempo mais que suficiente para que a comparação com a vida dos outros deixe de ser algo pontual e passe a fazer parte da rotina. O psicólogo americano, Jonathan Haidt, no livro “A Geração Ansiosa”, relaciona a chegada do smartphone e das redes ao aumento expressivo dos casos de ansiedade e depressão entre adolescentes a partir do início da década de 2010.
Esse é o ponto em que o tema deixa de ser apenas emocional e também afeta a saúde cardiovascular desses jovens. Um corpo que vive em estado de alerta permanece o tempo todo em rotação mais alta, com o coração batendo mais rápido mesmo em repouso e a pressão inclinada a subir, num desgaste que, ao longo dos anos, prepara o terreno para a doença cardiovascular. Quem passa a madrugada no celular dorme menos e pior, e noites curtas desorganizam a saúde emocional e física. A ansiedade dessa geração tem consequências físicas claras.
Saber que o álcool atrapalha o sono, que o ultraprocessado faz mal e que o sedentarismo encurta a vida ajuda a tomarmos melhores decisões, e nesse aspecto o acesso à informação é um ganho. O excesso de informação, quase sempre alarmista e cheio de contradições, é diferente: instala uma vigilância constante sobre o próprio corpo, na qual cada sintoma vira uma busca no celular e cada busca devolve o pior cenário imaginável. Levado ao extremo, o cuidado se converte em angústia, e não é raro encontrar um jovem saudável convencido de que está doente.
A saúde não cabe num único compartimento. Ela é física, mental, social e espiritual, e o equilíbrio entre essas quatro dimensões é o segredo de uma vida plena. De pouco adianta o corpo em dia quando a mente não descansa, os laços se afrouxam e não temos um propósito em nossas vidas.

A geração mais saudável por fora e mais frágil por dentro
Os jovens que estão chegando à vida adulta cuidam do corpo como poucos.

