Outro dia assisti à entrevista de um homem de uns 80 anos, financeiramente resolvido, dono de um patrimônio construído ao longo da vida. Perguntaram a ele o que era felicidade. A resposta: felicidade é ver que os filhos e os netos fazem questão de estar ao lado dele, e que ninguém abre mão de uma viagem anual com todos reunidos.
Mesmo com todo o dinheiro acumulado em décadas de trabalho, o que esse homem chamou de felicidade foi a presença voluntária da família ao seu redor. São os valores de cada pessoa que definem o que ela entende por felicidade, e quando esses valores ficam claros a ponto de organizar as decisões do dia a dia, isso é o que chamamos de propósito de vida.
O propósito interessa ao médico porque muda o comportamento do paciente. Quem tem um propósito de vida adere muito mais a um estilo de vida saudável. Um estudo publicado em 2014 na revista PNAS, com 7.168 americanos acima de 50 anos, mediu isso de forma objetiva. A cada ponto a mais numa escala de propósito, crescia a procura por exames preventivos, como dosagem de colesterol, mamografia e avaliação de próstata, e o número de noites passadas no hospital caía 17%. O paciente com propósito procura o médico antes de a doença aparecer.
O efeito final aparece na mortalidade. Uma metanálise de 2016 na revista Psychosomatic Medicine reuniu dez estudos, com 136 mil pessoas acompanhadas por cerca de sete anos, e encontrou 18% menos mortes e menos eventos cardiovasculares, como infarto e derrame, entre os participantes com propósito bem definido. Em 2019, um estudo do JAMA Network Open confirmou o achado em quase 7 mil americanos acima de 50 anos, e o efeito se manteve independentemente de renda e escolaridade. No Japão, onde o conceito tem nome próprio, ikigai, o Estudo Ohsaki acompanhou 43 mil adultos por sete anos. Quem dizia não ter um propósito teve risco de morte 50% maior.
A explicação passa pelos pilares que sustentam a saúde ao longo das décadas: alimentação, atividade física, sono, controle do estresse e vínculos. Nenhum deles produz resultado em semanas. O entusiasmo inicial de qualquer tratamento dura pouco. O que mantém um hábito por 30 anos é entender o porquê de estar fazendo aquilo: não é o medo do infarto, é viver mais e melhor para ter mais tempo ao lado das pessoas, dos lugares e dos momentos que valem a pena.
Precisamos entender um conceito mais amplo de saúde: a física, do corpo que treina, dorme e se alimenta bem. A mental, do estresse controlado e da mente ativa. A social, dos vínculos que dão vontade de estar presente. E a espiritual, que independe de religião: é o senso de significado, a resposta à pergunta sobre por que vale a pena viver mais.
Longevidade não é o suplemento da moda ou tomar um punhado de vitaminas todo santo dia. Longevidade é viver mais e melhor ao lado de quem vale a pena.

Qual o seu propósito?
Outro dia assisti à entrevista de um homem de uns 80 anos, financeiramente resolvido, dono de

