Quarenta por cento dos adultos brasileiros vivem com obesidade. Para se ter uma ideia do que isso representa, em 2006 esse número era de 12%. Em 20 anos, a obesidade cresceu exponencialmente no país. Se fosse uma doença infecciosa, já teríamos decretado emergência de saúde pública há muito tempo. Mas seguimos tratando o problema como questão estética e de força de vontade.
A obesidade não é sobre aparência. É sobre o que o excesso de gordura faz por dentro do corpo: prejudica a circulação, sobrecarrega o coração e aumenta o risco de infarto e AVC. Cada quilo de gordura visceral, aquela que se acumula dentro do abdômen, ao redor dos órgãos, funciona como uma fábrica de substâncias inflamatórias que circulam pelo sangue e atacam as paredes dos vasos. Com o tempo, essa inflamação crônica enrijece as artérias, eleva a pressão, altera o colesterol e favorece a formação de trombos. O infarto e o AVC raramente chegam sem aviso: chegam depois de anos de aviso ignorado.
O que me preocupa não é apenas a prevalência: é a invisibilidade do processo. A obesidade causa dano cardiovascular muito antes de causar sintoma. O paciente não sente as artérias endurecendo. Não sente a gordura se depositando ao redor do coração. Não sente o aumento da pressão que ocorre durante o sono, quando o ronco interrompe a oxigenação e força o coração a trabalhar mais do que deveria. Esse silêncio é traiçoeiro. É exatamente por isso que o rastreamento precoce deixou de ser recomendação opcional para se tornar obrigação médica. Avaliar o risco cardiovascular de um paciente com obesidade não pode esperar o aparecimento dos sintomas; precisa acontecer antes, enquanto ainda há tempo de reverter o curso.
Aqui vale uma pergunta: você trata a sua pressão, o seu colesterol, a sua glicemia, mas já tratou o que gera tudo isso? Existe uma diferença fundamental entre controlar os marcadores da doença e atacar a causa da doença. Os medicamentos usados no tratamento da obesidade, como Ozempic e Mounjaro, que ganharam enorme visibilidade nos últimos dois anos, representam um avanço nessa direção, não apenas por reduzirem o peso, mas por demonstrarem, em estudos clínicos, redução direta de eventos cardiovasculares graves, como infarto e AVC. Não são milagre, não substituem hábitos e não funcionam para todos da mesma forma. Mas são uma evidência de que a ciência finalmente está levando a sério a obesidade como doença e não como falta de disciplina.
O problema é que nenhuma medicação resolve o que a cultura insiste em distorcer. Vivemos num país onde comer mal é mais barato do que comer bem e onde o sistema de saúde ainda trata a obesidade com orientações genéricas e encaminhamentos que demoram meses. Enquanto isso, o coração espera. E o coração, ao contrário do que gostaríamos, não espera para sempre.
O Brasil está engordando mais rápido do que está se cuidando. E a consequência disso não se mede apenas na balança, mas no avanço de doenças graves e evitáveis.

Alimentação
Obesidade não é estética. É doença em progressão
Quarenta por cento dos adultos brasileiros vivem com obesidade. Para se ter uma ideia do que

